Estudo feito por cientistas de Harvard indica que o uso de calçados que têm a parte anterior elevada (“pontas curvadas”) pode predispor à fraqueza dos músculos estabilizadores do pé, uma vez que reduz o esforço necessário para andar. A pesquisa foi publicada recentemente na revista científica Scientific Reports, do grupo Nature.

O presidente da ABTPé (Associação Brasileira de Medicina e Cirurgia do Tornozelo e Pé), Dr. José Antônio Veiga Sanhudo, explica que durante a marcha, a musculatura intrínseca normalmente age na estabilização da porção anterior do pé no momento em que estamos apoiados na ponta dos pés para impulsionar o corpo para a frente. O estudo demonstrou que calçados com a parte anterior curvada podem limitar os movimentos das articulações entre os metatarsos e falanges, facilitando a passada, mas fazendo com que essa musculatura seja menos exigida. “Segundo os autores, o uso desse tipo de calçado pode levar a atrofia muscular e sobrecarga de estruturas vizinhas, o que predispõe lesões como a fascite plantar”, fala Sanhudo.

“Existe um conceito conhecido como foot core, que é definido como o centro de gravidade do pé. Esse centro é estabilizado pelos músculos intrínsecos, pela estrutura óssea e ligamentar. Com a fraqueza dessa musculatura, realmente pode ocorrer uma desestabilização das forças que atuam no pé durante a marcha, gerando sobrecarga em outras estruturas”, pontua o Diretor da Regional São Paulo da ABTPé, Dr. Danilo Ryuko Cândido Nishikawa.

Tênis esportivos

Os tênis esportivos são um exemplo de calçado com a ponta curvada, mas Dr. Sanhudo ressalta que o cenário desportivo apresenta desenvolvimento constante de novos tênis de corrida. O mercado disponibiliza modelos com variações de flexibilidade, formatos e espessuras do solado externo, produzidos a partir de estudos direcionados para melhora de performance e menor risco de lesão. “Alguns anos atrás, os tênis tidos como minimalistas (solado externo fino) pareciam ser os mais adequados para a corrida. Hoje, aqueles com solados mais grossos, menos flexíveis e com ponta curvada, tidos como maximalistas, surgem como proposta para reduzir o impacto da corrida e, com isso, tem o potencial de prevenir lesões”, diz o presidente da ABTPé.

Dr. Nishikawa salienta que, além de escolher um bom tênis para correr, é importante lembrar que isso é apenas um fator no conjunto de medidas que podem prevenir lesões. “Uma rotina adequada de treinamento, associada a exercícios para fortalecimento muscular, melhora da propriocepção (equilíbrio) e da biomecânica da corrida são outros fatores a serem considerados. Em caso de dúvidas, acesse o site da Associação Brasileira de Medicina e Cirurgia do Tornozelo e Pé e localize o especialista mais próximo, que pode indicar o calçado mais recomendado para a sua necessidade”.

Pesquisa

A pesquisa de Harvard envolveu 13 voluntários, que andaram em uma esteira descalços e, depois, usando quatro pares de sandálias personalizadas. A esteira foi especialmente projetada, com plataformas de força e um sistema de câmeras de infravermelho que media a quantidade de energia aplicada em cada passo.

Cada par das sandálias foi desenvolvida com vários graus de ângulos de mola – 10, 20, 30 ou 40 graus – para imitar a rigidez e a forma encontradas em calçados disponíveis comercialmente.

Os autores do estudo observaram que quanto mais curvada para cima for a ponta do sapato (a chamada “mola do dedo do pé”), menos força o pé precisa fazer contra o chão para dar cada passo. Na opinião deles, o uso prolongado desse tipo de calçado pode gerar, então, um acúmulo de desuso da musculatura intrínseca do pé. Eles consideram que uma pessoa comum, que vive em um país industrializado, realiza de 4 a 6 mil passos por dia.

Os pesquisadores trazem a hipótese de que essa fraqueza em potencial pode tornar as pessoas mais suscetíveis a problemas como a fascite plantar, um processo inflamatório ou degenerativo que afeta a fáscia plantar, membrana de um tecido fibroso pouco elástico, que recobre a musculatura da sola do pé e que é responsável pela sustentação do arco longitudinal. No entanto, os autores frisam que a ligação entre as “molas dos dedos dos pés” e a fascite plantar ainda precisa de mais estudos.

“Os achados desse estudo são relevantes, embora apresentem evidências insuficientes para estimar a repercussão do uso prolongado de calçados de ponta curva, especialmente nos praticantes de corrida. Nesse sentido, ainda se fazem necessários mais estudos para entendermos melhor as alterações biomecânicas do pé”, conclui Dr. Sanhudo.

Fonte: https://www.segs.com.br/saude